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As qualidades essenciais do verdadeiro discipulado

As qualidades essenciais do verdadeiro discipulado

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Na parábola do semeador (Lucas 8:4-15), Jesus disse que pessoas diferentes responderiam ao evangelho de modos diferentes. Muitos inicialmente ouviriam e obedeceriam à verdade, mas nem todos estes guardariam a fé com persistência. Alguns se tornariam infiéis e se afastariam. Aqueles que “não tiverem raiz,” por exemplo, podem acreditar “durante algum tempo,” mas no tempo da tentação se afastariam (v. 13). Ainda outros são “afogados com cuidados, riquezas e prazeres da vida.” Jesus disse que estes não “darão fruto de maturidade” (v. 14).

A verdade do assunto é que é preciso certo tipo de caráter para buscar a Deus fielmente, e nem todos escolherão ter este tipo de caráter. O chamado do evangelho separa aqueles que têm uma “raiz” em si mesmos daqueles que não a têm. Saber isto deverá estimular algum pensamento sério a respeito de nós mesmos. Temos pessoalmente o que é preciso? Estamos querendo ser iguais àqueles que têm o caráter forte interior que o evangelho requer? Buscar a Deus requer “Três C’s”: coragem, compromisso e confissão. Se não estamos querendo pagar o preço em qualquer destas áreas, então o cristianismo não é para nós.

 

Coragem. No mínimo, é preciso coragem para seguir o Senhor. Em Apocalipse 21:8, os tímidos ou covardes encabeçam a lista daqueles que serão perdidos. Coragem é força em face do perigo, e podemos estar certos de que o diabo vai tornar nosso discipulado a Cristo tão perigoso quanto ele puder. Mas a qualquer perda com que o diabo possa nos ameaçar, podemos ter a coragem que vem da fé, que é vontade de enfrentar riscos reais baseados na nossa confiança que Deus nos salvará. A pessoa cujo objetivo principal é proteger a si mesmo e não se arriscar nunca será um fiel seguidor do Senhor. Os riscos são reais, as perdas neste mundo podem ser grandes, e são somente as pessoas corajosas de fé que lutarão e continuarão lutando até que a última batalha seja ganha.

Compromisso.

Se não tomarmos um genuíno compromisso com Deus não resistiremos muito tempo em face do que o diabo pode atirar em nós. A fé necessária para nossa salvação em Deus envolve muito mais do que um rompante de veneta passageira. Nem pensamento positivo nem simplesmente “fazer uma experiência” serão suficientes. Se propusermos seguir a Cristo, teremos que ter o caráter que é capaz de fazer uma promessa de boa fé de fazer realmente o que decidimos fazer. Tiago nos urge a “purificar” nossos corações de indecisão: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração” (Tiago 4:8). Não há maior necessidade em nossos dias do que é, para aqueles que professam ser discípulos do Senhor, decidir e focalizar seus corações em Deus com um compromisso profundo.

Confissão.

Compromissos secretos não se sustentam tanto como os públicos, e não deverá nos surpreender que o Senhor exija que coloquemo-nos publicamente no registro como tendo tanto crido nele como nos comprometido a ser seus discípulos (Romanos 10:9; 1 Timóteo 6:12, 13). Como o próprio Jesus, a testemunha verdadeira e fiel (Apocalipse 3:14), que nunca deixou de reconhecer publicamente o que ele sabia ser verdadeiro particularmente, precisamos querer morrer antes que encobrir ou esconder nossas convicções e nosso compromisso com Cristo. Tão importante é nossa confissão que o escritor de Hebreus fala dela como a própria coisa que precisa ser conservada firmemente se quisermos chegar ao céu, ele escreveu: “… conservemos firme a nossa confissão” (Hebreus 4:14) e “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hebreus 10:23).

Então, ser um discípulo fiel de Cristo exige coragem, compromisso e confissão. Porém não nos enganemos: o fato que podemos “não ter o que é preciso” não significa que nascemos de um modo ou outro com a predestinação de Deus. Muito ao contrário, caráter é questão de escolha, e a escolha é só nossa. Nosso “coração” é determinado pelas muitas decisões de livre vontade que tomamos a cada dia. Algumas destas são grandes, outras são pequenas. Mas, juntas, elas todas acrescentam ao total o que é chamado nosso “caráter”.

Porque nossas escolhas fazem nosso caráter, podemos mudar de um “coração” para outro. De fato, isto é precisamente o que é envolvido com ser “convertido” a Cristo. Tal conversão não é opcional. Jesus disse que temos que mudar: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3). Seja o que tivermos sido no passado, hoje temos coragem? Estamos querendo ter compromisso genuíno com Deus? Serão nossas vidas caracterizadas por uma confissão fiel de nosso compromisso enquanto vivermos? Se assim for, temos as qualidades essenciais do verdadeiro discipulado!

A Essência Do Discipulado

“Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se  negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lucas 9:23).

Tudo o que tem valor tem seus desafios e responsabilidades. Jesus apresentou este grande desafio a qualquer homem que deseja (thelei, deseja) vir após (erchesthai opis, tempo presente do infinitivo, seguir continuamente, ou buscá-lo). Seguir após Jesus requer o desejo de seguir. Não somos coagidos. Os discípulos de Cristo são voluntários.

Ir após Jesus envolve um compromisso a afastar-se de toda ligação psicológica com o mundo e um reconhecimento das implicações, padrões e condições para submeter-se a Cristo e ser contado entre aqueles que estão em plena relação com ele (veja também Lucas 14:27). Aqui, Jesus articula três conceitos básicos envolvidos em vir após ele. Ninguém será aceito se recusar estas estipulações.

Negar-se a si mesmo

Primeiro, o discípulo de Cristo precisa negar-se a si mesmo. O seguidor de Cristo adota uma nova identidade. Ele põe-se totalmente à disposição de Jesus. Ele abandona e rejeita o eu como o objeto da vida e da ação. Ele não continua mais com os modos de pensar que elevam modelos egoístas e hipócritas de comportamento. Ele denuncia a confiança em si como a fonte da proteção e do cuidado providencial. “… não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos”(Jeremias 10:23; veja Provérbios 14:12). Com Paulo, poderíamos dizer, “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor … para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria” (Filipenses 3:8-11).

A negação de si mesmo é repudiar, afastar-se da sua própria independência em favor de submissão a outro. Devemos dizer “sim” a Cristo e “não” ao eu. Isto significa pôr Jesus acima do eu. É mais do que dizer “não” a alguma coisa ou atividade pecaminosa. É dizer “não” à minha própria vontade. O cristão precisa desistir do seu ego, gratificação e aspiração. Paulo disse, “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:1-2).

 

Tomar a Cruz

Segundo, o discípulo de Cristo precisa tomar sua cruz. Jesus literalmente tomou sua cruz e carregou-a ao Gólgota. Isso foi o que ele fez por nós. Isso foi seu propósito ao vir aqui. Que faremos por ele? Nosso propósito pela vida será concentrado nele? Desejamos sacrificarmo-nos por ele? Desejamos aceitar uma vida cheia de cruzes, centrada em Cristo e crucificados com ele (Romanos 6:6)? Se for assim, não serei eu mais quem vive, “mas Cristo é que vive em mim, e a vida que eu agora vivo na carne, vivo por fé no filho de Deus que me amou e deu a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20; veja também 5:24; 6:14)?

Tomamos figurativamente nossas cruzes quando nos comprometemos a sacrificar tudo pelo nosso Senhor e fazer disso nosso propósito para toda a vida. A discussão aqui não é sobre o sofrimento comum do homem. É sobre o compromisso e sacrifício por Cristo e sua causa. Observe, novamente, a responsabilidade contínua. Temos que fazer isto diariamente. Isto não é sacrifício momentâneo.

Seguir a Cristo

E terceiro, Jesus disse, segue-me. Aqui ele não estava chamando literalmente pessoas para viajar pelas poeirentas estradas da Galiléia com ele. Alguns fariam isso, mas nem de todos isso foi exigido. O sentido é que todos deveriam imitá-lo, obedecê-lo e servi-lo.

Novamente, o verbo implica em busca contínua. Pedro disse que Jesus nos deixou como exemplo que deveríamos “seguir seus passos” (1 Pedro 2:21). Sua autoridade está implícita no mandamento. Ele é o guia, o rei. A concordância com este encargo está necessariamente de acordo com os dois anteriores. Seguir a Cristo implica desistir do eu e iniciar o rumo próprio, um rumo de sacrifício, para a vida toda. Estamos dispostos a isso? Desafie-se com o grande desafio que Jesus pôs diante de nós todos.

  1. G. “Colly”Caldwell

As Obras da Carne ­ O Inimigo Interior
por Paul Earnhart

O tempo parece ser propício para o bom sentimento religioso.  Há um espírito de alegria, a mensagem é animadora.  E contra isso em si não temos queixa.  O evangelho é uma mensagem bem positiva.  É uma mensagem de salvação e de redenção ­ uma palavra de graça e de alegria.  Mas não é uma graça barata, nem uma alegria fácil.  E é exatamente aqui que me encontro ansioso com o espírito religioso de nossos dias ­ um espírito que embrulha e vende o “evangelho” como se faz com óleo de cobra, um remédio de charlatão de rápida ação, que cura tudo e nada exige.  Como certa vez observou C. S. Lewis, o evangelho no final das contas é bastante confortador, mas não se inicia assim.  A palavra de Cristo no começo nos desfaz em pedaços num desmascarar doloroso de nossos pecados (veja Romanos 13), depois com amor e cuidado nos torna inteiros de novo (Salmos 51:8).  O evangelho é livre, mas não é fácil.  Não há nascimento sem dores de parto, não há liberdade sem disciplina, não há vida sem morte, não há “sim” sem “não”.  É nesse espírito que se escolheu o tema desta edição da revista.  Não para levantar um eterno “Não”, mas para reconhecer que a vida em Cristo tem inimigos mortais que têm que ser resistidos sem compromisso.

O que Paulo quer dizer com a “carne”?  Será que os homens receberam duas naturezas na criação ­ uma má e outra boa?  Ou será que pelo pecado de Adão entrou no homem alguma perversidade profundamente arraigada?  A resposta a essas duas perguntas é um inequívoco “não”.  Quando Deus criou o homem, este foi declarado completamente “bom” (Gênesis 1:31).  Todo homem que pecou desde Adão até os nossos dias não o fez por necessidade, mas por livre escolha.  Os homens pecam porque querem (Eclesiastes7:29).  Não somos espirituais nem carnais por natureza, mas somos capazes das duas coisas, e, como seres humanos, temos de escolher entre esses dois caminhos e nos responsabilizar por nossa escolha.

Embora Paulo às vezes use “carne” (sarx) em referência ao corpo físico (Romanos 2:28) ou ao aspecto humano (Romanos 3:20), a palavra significa muito mais do que isso em Gálatas 5:16-24.  O corpo pode tornar-se um instrumento da glória de Deus (Romanos 12:1; 1 Coríntios 6:20), mas a “carne” não (Romanos 8:5-8).  O corpo pode ser redimido e transformado (Romaos 8:23; Filipenses 3:21), mas a “carne” deve morrer (Gálatas 5:24).

A “carne” que milita contra o Espírito não é a mente ou o intelecto, pois a mente, como o corpo, pode ser transformada e renovada, treinada para servir aos propósitos divinos (Romanos 12:2).

Essa “carne” não é nem a mente nem o corpo em si mesmos, mas uma atitude pela qual o homem opta e que o põe contra Deus.  Na “mente carnal”, a vontade do homem torna-se suprema.  Seus desejos têm que ser atendidos acima de todas as coisas.  Estes podem ser as concupiscências da carne ou os desejos da mente (Efésios 2:3), mas serão satisfeitos a qualquer custo.  É por isso que “as obras da carne”, contra as quais Paulo adverte, abrangem mais que os apetites do corpo.  Na realidade, se possível, estes são as menores das enfermidades espirituais.  É na mente que escolhemos servir a nós mesmos.  É na mente que nos tornamos arrogantes e egoístas e tomamos decisões que desonram o corpo (Romanos 1:24) e escurecem o raciocínio (1:21).  Viver em toda obra da carne significa fazer o que eu quero ­ não simplesmente satisfazer os meus desejos carnais mais baixos, mas atender os desejos do meu ego.  O orgulho e a paixão vivem na “carne” em perfeita harmonia.

Precisamos conhecer os nossos inimigos.  Os artigos que se seguem nos ajudarão a identificá-los melhor.  Não são as pessoas, mas os desejos perversos que procuram roubar o nosso coração de Deus.  Existe uma forma racional de enfrentarmos esses adversários ­ crucificá-los impiedosamente e sem olhar para trás (Gálatas 5:24).  Será penoso (1 Pedro 4:1), mas não tanto quanto a perda da eternidade.

Discórdias, Dissensões, Facções
por Karl Diestelkamp

Que dor!  Que sofrimento!  Que tristeza!  Tudo porque alguns na igreja estão inclinados a seguir por um caminho com “discórdias, dissensões, facções” (Gálatas 5:20).  Geralmente são coisas que se associam para causar tristeza para o cristão e grande prejuízo ao corpo de Cristo.  Quem nunca viu essas “obras da carne” trabalhando e se intrometendo nas várias igrejas de Cristo?

A discórdia é “vã ambição” com o objetivo de ganhar seguidores.  Uma pessoa com o espírito de discórdia está tão tomada de seus desejos pessoais e ambições que para ela a pureza, a paz e a santidade da igreja podem ser sacrificadas.  A discórdia exige uma “divisão” dos irmãos, e é improvável que alguém tomado desse espírito esteja disposto a ficar sozinho.  Ele buscará outras pessoas para acompanhá-lo na separação, apoiando sua “posição” e criando facções sectaristas.  O padrão é progressivo.  A pessoa facciosa permanece em meio à igreja enumerando os seus seguidores.  Essa postura, levada à conclusão lógica, traz divisão, a qual leva às facções estabelecidas, que buscam outras pessoas para integrar a sua “causa”.

Nada há mais feio ou mais prejudicial do que aquele que professa ser um seguidor do Príncipe da Paz ao mesmo tempo que demonstra uma agressão voluntariosa contra os irmãos.  Os que sectarizam a igreja como em “Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (1 Coríntios 1:12) são advertidos:  “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá” (1 Coríntios 3:17).  O cristão que se envolve com qualquer uma das obras da carne não apenas se fere, mas prejudica a igreja.  As brigas levam à discórdia, as discórdias levam às dissensões e as dissensões levam às facções.  O resultado é trágico. O avanço do evangelho é impedido, os fiéis são desencorajados, o irmão fraco é prejudicado e a desconfiança geral, a intranqüilidade e dúvida predominam.  Mas, o que é mais triste, quase sempre, perdem-se almas!

Quando o homem vai aprender que a palavra de Deus não reserva nada de bom para aqueles que têm em mente a “preeminência”, os seguidores pessoais, a divisão entre os irmãos ou a formação de facções no corpo de Cristo?  O Espírito Santo é inequívoco sobre esse assunto.  “Evita o homem faccioso, depois de admoestá-lo primeira e segunda vez” (Tito 3:10).  “Noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos . . . afastai-vos deles” (Romanos 16:17).

Seria bom que ficássemos avisados sobre algumas das coisas que podem levar à participação nessas impiedades.  Nenhum de nós está imune contra a tentação de transformar a popularidade em orgulho, os elogios em transigência, o talento em tirania, as habilidades em vantagem e as aptidões em suposta superioridade.  Alguns desejam ser mestres, “não compreendendo, todavia, nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem ousadas asseverações” (1 Timóteo 1:7).  Outras deviam ter crescido espiritualmente, mas não cresceram (1 Coríntios 3:1-3; Hebreus 5:12-14), permanecendo como crianças, carnais e sem desenvolvimento.  Essa paralisia infantil cria um material ideal para o faccioso buscar um adepto.  Outros, com falta de coragem ou de convicções, dobram-se aos presbíteros teimosos, “dominadores dos que vos foram confiados” (1 Pedro 5:3), ou a algum Diótrofes autodesignado e servidor de si mesmo, a quem temem que vá expulsá-los da igreja (3 João 9-10).

“De onde me virá o socorro.”  Um apelo forte, firme e insistente para um “assim diz o Senhor” e para um compromisso pessoal com um ato autorizado, cada um de nós fazendo a nossa parte, fará muito para impedir a destruição da força e da unidade do corpo.  A indiferença, a frouxidão e a transigência da verdade contribuem para um sementeiro fértil para esses e outros erros ­ ao passo que a vigilância, o zelo junto com a convicção e a firmeza impedirão bastante o avanço deles em qualquer igreja ou indivíduo.  Não é provável que qualquer pessoa que verdadeiramente busque em primeiro lugar o reino de Deus (Mateus 6:33), que ame os santos, seus irmãos, “de coração . . . ardentemente” (1 Pedro 1:22) e que estime outros cristãos melhor do que ela (Filipenses 2:3) seja facilmente tomada pela dissensão, pela discórdia e pelas facções.  Isso seria incoerente!

Usando o plano de Deus, podemos acabar com tal iniqüidade.  “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor . . . se há entranhados afetos e misericórdias . . . penseis a mesma cousa . . . nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:1-4).  A discórdia, a dissensão e as facções não podem ter sucesso num ambiente desse.  Seja forte!

Corações podem mudar

Conforme Buttrick observou: “Nenhuma parábola pode ser comprimida numa conclusão rigorosa. Há um ponto onde termina a analogia”. O solo da natureza não é completamente paralelo ao “solo” do coração. O solo natural não tem poder para alterar sua condição, mas o coração pode mudar. Felizmente, corações duros, rasos e apinhados podem se tornar honestos e bons (Atos 8:22-23; Tiago 4:8). E, infelizmente, corações honestos e bons podem tornar-se duros, rasos e divididos (Hebreus 3:12-13). Precisamos ser muito ponderados com os últimos. Pelos primeiros podemos ser grandemente confortados, tanto como ouvintes como mestres do evangelho. O evangelho do reino é um apelo aos corações para mudar (Atos 3:19). O que temos sido não determina o que podemos ser. Pecadores precisam receber a graça de Deus com segurança, e cristãos precisam pregá-la com esperança. Corações que rejeitam hoje o evangelho não são, necessariamente causas perdidas. A palavra de Deus não germina em alguns corações tão rápido como em outros. Precisamos, portanto, aprender como regar paciente e amorosamente o que plantamos, e não ser como a garotinha que continuou cavando a sementeira do jardim para ver se alguma coisa estava acontecendo.

O coração da mulher que Jesus encontrou em Sicar da Samaria é quase um padrão completo de todos os corações da parábola do Semeador. Primeiro, ela era dura e suspicaz, “porque os judeus não se dão com os samaritanos” (João 4:9). Ela tinha pouco senso crítico de sua própria vacuidade espiritual. Mas, como tinha vindo buscar água, seu coração se entreabriu quando Jesus falou da água viva que mataria a sede dela para sempre. “Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la” (João 4:15). O Senhor então lavrou um profundo sulco no coração dela pedindo-lhe para chamar seu esposo, assim recordando-lhe a impiedade de sua vida: cinco esposos, e agora amasiada com um homem. Ela é tocada, mas seu coração está apinhado. Em vez de enfrentar sua necessidade espiritual imediatamente, ela queria ter uma discussão teológica sobre onde os homens deveriam adorar, se em Jerusalém ou no Monte Gerazim. Ao tempo em que Jesus terminou de ensinar-lhe o que significava adorar verdadeiramente a Deus, ela estava profundamente presa. “Eu sei, respondeu a mulher, que há de vir o Messias…. quando ele vier, nos anunciará todas as coisas”(João 4:25). “Disse-lhe Jesus: Eu o sou, eu que falo contigo”. E a semente foi para casa profunda e seguramente no coração que tinha agora se tornado absolutamente honesto. “Muitos samaritanos daquela cidade creram nele, em virtude do testemunho da mulher, que anunciara: Ele me disse tudo quanto tenho feito” (João 4:39). Ela tinha estado ouvindo as coisas dolorosas que ele lhe tinha dito a respeito dela, e ouvindo bem. Ela tinha entendido o que um verdadeiro adorador de Deus era, e que até ela poderia ser. Isso mudou-a completamente e, como tinha de ser, enviou-a a dizer a todos que a pudessem ouvir como tinha acontecido e porque. De cada coração verdadeiro sai muito fruto, e que fruto este coração desta antes dura e pecaminosa mulher, agora sincera, produziu!

Mas qual é o significado dos diferentes rendimentos da terra boa mencionados em Mateus e Marcos, ” … e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” ? (Mateus 13:23). Isto sugere diferentes graus de fidelidade ou consagração? Parece altamente improvável. O coração da boa terra é absolutamente singelo, em contraste com o coração raso do solo pedregoso e do coração apinhado do solo espinhoso. O que é mais provável é que esta seja um paralelo à parábola dos talentos (Lucas 19:16-19). A responsabilidade vem a nós no reino de acordo com nossa capacidade. O fruto produzido pode variar, porém não a consagração do coração. Certamente o Senhor nos julgará por nossas oportunidades e capacidades, mas um coração puro e singelo é a única coisa que não é negociável.

E então, finalmente, a pergunta mais óbvia para aqueles que encaram seriamente as parábolas. O que aprendi sobre mim mesmo? Qual dos solos descreve minha atitude para com o Senhor e sua palavra? Meu compromisso com Cristo é instável, cheio de capricho e emoção? Ele luta pela vida com a competição de incontáveis interesses de uma vida apinhada? E se a resposta for inquietante, qual decisão tomei para mudar?

-por Paul Earnhart

Encontrando o Máximo

Novamente, “O reino do céu é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e tendo achado uma pérola de grande valor, vendeu tudo o que possuía e a comprou” (Mateus 13:45-46).

Os antigos consideravam as pérolas como extremamente preciosas e ficavam fascinados por elas, como os modernos ficam com grandes diamantes. Explicações misteriosas eram dadas para sua formação e somas fabulosas eram pagas para possuí-las. Por esta razão os mercadores dos tempos antigos esquadrinhavam o mundo em busca dos mais belos espécimes e, conseqüentemente, proveram Jesus com uma ilustração muito irresistível da busca pelo máximo, o mais alto bem.

A mensagem da parábola do grande preço e a do tesouro escondido no campo são claramente a mesma. Os homens, em ambas as parábolas, reconhecem o valor do que encontraram e não hesitaram em vender tudo o que tinham para possuí-lo. Nenhum deles teve que ser seduzido ou engambelado para agir. Eles se movimentaram com alegre abandono. Assim, diz Jesus, é o reino do céu. Ele custa tudo o que possuímos mas é o bem de mais alto valor, o tesouro incomparável e a alegria de obtê-lo suplantará qualquer sentimento de perda. O custo do discipulado era um tema freqüente com o Senhor. Ele não queria nenhuma desilusão (Lucas 9:57-62). Sua linguagem era freqüentemente pitoresca. “Se alguém vem a mim e não aborrece seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26). Tais afirmações eram a expressão prática de sua exigência de absoluta lealdade. Aqueles que o seguiam tinham de ser preparados para abandonar tudo por amor a ele (Mateus 16:24-25).

Como é, alguém pergunta, que um reino dado pela graça de Deus tem que ser comprado a um preço tão alto? Primeiro de tudo, o valor incomparável do reino do céu coloca-o além da possibilidade de compra. Quando Deus dá a pessoas pecadoras o que elas não têm absolutamente nem direito nem capacidade de obter, isso tem que ser uma doação. Mas, por definição, o dom do reino ou do domínio de Deus não pode ser possuído por aqueles que não se entregarem totalmente a ele. O preço que pagamos para sermos seguidores de Cristo não é em coisas mas em nossa avassaladora afeição por elas; não em pessoas mas em nosso preeminente compromisso com elas; e não em posição ou prazer mas em nosso amor primordial por eles. O reino de Deus é encontrado onde “Cristo é tudo” (Colossenses 3:11). Tudo o que somos e temos precisa ser usado para servi-lo.

Mas se Jesus, nestas duas parábolas, fala do custo do reino, isso não é seu impulso principal. Nosso Senhor não nos chama pelo custo do discipulado, e sim pelas alegrias transcendentes de segui-lo. Não podemos persuadir um homem a atear fogo em sua casa dizendo-lhe como isso é deplorável. Se for uma pocilga, é a única que ele tem. Mas se lhe garantirmos alguma coisa muito melhor, ele alegremente a queimará e dançará em volta das chamas. Os dois homens desta parábola não abandonam tudo por causa de algum ascetismo perverso, mas porque encontram alguma coisa tão superior que faz com que aquilo que eles têm agora pareça nada. Assim, Paulo, ao jogar fora como lixo tudo o que ele anteriormente tanto estimava não fez um exercício de rilhar os dentes em negação de si mesmo, mas reagiu ao transcendente valor de Cristo (Filipenses 3:8-10). Como ele escreveu tão vigorosamente em Colossenses, “Cristo é tudo” (3:11), “a plenitude da Divindade” (2:9), aquele “em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (2:3). Quando os homens verdadeiramente vêem “a Glória de Deus na face de Cristo” (2 Coríntios 4:6), não podem mais ficar contentes com as fumaças e espelhos deste mundo. “Não é louco aquele que dá o que não pode ter para ganhar o que não pode perder”

Mas, como foi observado antes, há alguma diferença entre estas duas parábolas semelhantes. O homem que encontrou o tesouro escondido descobriu-o totalmente por acidente. Ele ficou surpreso e tomado pela alegria. O comerciante, por outro lado, tinha uma questão séria. Se houvesse alguma surpresa, foi porque ele encontrou o que estava buscando em uma única pérola. Freqüentemente nós imaginamos onde poderemos encontrar pessoas potencialmente adequadas para o reino. Estas duas parábolas nos dão a resposta. Elas aparecerão na forma de almas sinceras como a do nobre etíope ou a do soldado italiano, Cornélio, que estavam conscientemente procurando o reino. E serão encontradas entre aqueles como a mulher samaritana, cujas vidas estão ocupadas com o mundano e o imoral e não dão sinal de preocupação espiritual. Estes aguardam apenas a aproximação preocupada de um discípulo daquele que veio buscar e salvar os perdidos.

-por Paul Earnhart